Relembrar é viver

Idoso gosta de conversar sobre o passado, falar sobre suas experiências de vida, momentos marcantes, pessoas queridas que não fazem mais parte do seu convívio. Se sente importante quando ouvido.

Muitos idosos emudecem, no convívio familiar, porque suas falas não são bem vindas, suas experiencias não geram interesse entre os mais jovens da família. Daí a importância de promover uma interação geracional.

Quando a família se reúne e permite ao idoso trazer as memórias da infância e narrar episódios vividos, os laços se fortalecem e as vivencias narradas passam a fazer parte do acervo de experiencias da família e propiciam um exercício essencial para a saúde mental e emocional dos idosos.

Quantos fatos desconhecidos podem vir à tona, podendo, inclusive, explicar comportamentos e atitudes dos idosos, diante de situações em que não se encontrava justificativa para tal comportamento.

Temos muito a aprender com aqueles que já trilharam uma longa jornada, já passaram por situações que hoje se repetem e que suas experiencias podem contribuir, e muito, mediante a forma como enfrentaram esses desafios e venceram. Na contação de suas histórias transmitem seu legado cultural.

Recentemente vivi um momento em família em que, a partir de uma provocação, em que fui convidada a narrar um caso, memorias foram despertadas vindo à tona histórias adormecidas e desconhecidas de minhas filhas e netas, culminando com o despertar de lembranças da infância, juventude e experiencias vivenciadas em família, causando surpresa algumas narrativas.

Foi um momento bom para todos. É como se elas se apropriassem de uma parte desconhecida da história de suas vidas e eu, com certeza, realizei uma catarse.

Eu mesma fiquei a me perguntar: por que tudo isso veio à tona?

Segundo a fonoaudióloga Flávia Augusta, disponível no https://flaviaaugustafono.com.br/memorias-afetivas-na-terceira-idade/

As memórias emocionais estão diretamente conectadas à atividade de neurotransmissores no cérebro. Quando vivemos um momento marcante, substâncias como a dopamina (neurotransmissor responsável por levar informações do cérebro para as várias partes do corpo) e a serotonina (conhecida como hormônio da felicidade, e que é o neurotransmissor que modula praticamente todos os processos comportamentais humanos) são liberadas. Essas substâncias reforçam as conexões entre as células nervosas, conhecidas como sinapses, tornando essas experiências mais fixas na memória de longo prazo.

É esse processo químico que explica por que momentos carregados de emoção são lembrados com tanta clareza e facilidade.

Explicou meu questionamento: por que tudo veio à tona.

Quando uma memória emocional é reativada, ela não apenas recupera detalhes específicos, mas também reacende as emoções associadas ao evento original.

Verdade. Não se trata de uma simples narrativa, ela vem acompanhada da emoção.

Este processo ajuda os idosos a manter um senso de continuidade e identidade pessoal.

Olha o que diz a matéria do site da Associação dos Aposentados do Brasil Disponível no https://aabrasil.com.br/relembrar-e-viver-a-importancia-das-memorias-para-a-terceira-idade/

Relembrar é viver. E lista os benefícios em relembrar.

• Fortalecimento da identidade: relembrar experiências marcantes ajuda a resgatar a própria história e a fortalecer o senso de identidade.

• Estimulação cognitiva: o ato de rememorar exercita o cérebro, ajudando a manter a memória ativa e a prevenir o declínio cognitivo.

• Combate à solidão e à depressão: compartilhar lembranças com amigos e familiares promove a conexão social e o bem-estar emocional.

• Melhora da autoestima: relembrar conquistas e momentos felizes aumenta a autoestima e a sensação de valor próprio.

Lembrei de um fato interessante. Minha mãe, de 92 anos, Alzheimer avançado, em determinado momento, se negou a receber alimentação e apelei para as memórias emocionais. Passei a narrar fatos relacionados à sua vida: ambiente onde viveu, familiares. E ela que de nada se lembra da vida presente, mudou o semblante, os olhos ficaram expressivos, como se estivessem acessando essas memórias e aceitou a alimentação.

A matéria conclui com dicas de como estimular a memória:

• Conversar sobre o passado: incentive o idoso a contar suas histórias e a compartilhar suas experiências.

• Ver fotos antigas: álbuns de família são verdadeiros tesouros de memórias.

• Ouvir músicas antigas: a música tem o poder de evocar emoções e lembrança. (mesmo sem lembrar de nada, minha mãe, em alguns momentos, cantou músicas do seu passado, sem errar uma estrofe).

• Visitar lugares importantes: revisitar locais que marcaram a vida do idoso pode trazer à tona memórias adormecidas.

• Criar um “cantinho da memória”: reserve um espaço na casa do idoso para expor objetos antigos que tenham significado para ele.

Lembrei daqueles que são retirados de seus lares, sem o cuidado de lhes preparar um ambiente que seja familiar. Na maioria das vezes, não temos esse cuidado, de levar com eles seus objetos de estimação para criar esse "cantinho da memória".

Lendo sobre essas dicas de como estimular a memória, lembrei de uma leitura que fiz do livro – Corpo sem idade, mente sem fronteiras, do Deepak Chopra, onde ele relata uma ação realizada no ano de 1979 pela psicóloga Ellen Langer e seus colegas em Harvard, que reuniu um grupo de velhos, todos com 75 anos ou mais, em um retiro de uma semana em uma estância rural. Eles não seriam autorizados a levar jornais, revistas, livros ou fotos de família com datas mais recentes que 1959.

A estância havia sido organizada como uma réplica da vida como ela era vinte anos antes.

Em vez de revistas de 1979, as mesas de leitura tinham revistas do ano de 1959. A única música que se ouvia tinha vinte anos de idade, e, para combinar com este flash back, pediu-se aos homens para que se comportassem como se estivessem no ano de 1959. Toda a conversa deveria se referir a acontecimentos e pessoas daquele ano. Cada detalhe daquela semana no campo seria concebido para fazer com que cada pessoa se sentisse, parecesse, falasse e se comportasse como se tivesse uns 50 anos de idade.

Para recuar até 1959, os pesquisadores fizeram com que cada homem do grupo usasse crachás de identificação com fotos tiradas vinte anos antes — o grupo aprendeu a identificar uns aos outros através desses retratos, em vez de pela sua aparência atual; todos foram instruídos a falar exclusivamente como se estivessem em 1959, deviam se referir às esposas e filhos como se tivessem vinte anos menos e, embora todos fossem aposentados, era para falar de suas carreiras como se estivessem em plena atividade.

O resultado é que o grupo melhorou em memória e destreza manual. Mostraram-se mais ativos e auto suficientes, comportando-se muito mais como gente de 55 do que de 75.

Valorizemos as histórias dos idosos e ajudemos a manter viva a chama da lembrança. Cada memória é um tesouro precioso.

Como diz José Saramago

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa.


Dora Rodrigues

4 de maio de 2025



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