Quantos anos tenho?
Eu não sei se isso acontece com vocês, mas eu sempre preciso fazer uma conta para saber minha idade. Nunca lembro, exatamente, quantos anos tenho. Em verdade, não me sinto com a idade que tenho.
Recentemente, fui renovar minha carteira de identidade e
quando fui atendida, me foi perguntado a minha idade. Eu fui fazer as contas do
ano que nasci, até aqui. Só então respondi com segurança: 67 anos.
Imediatamente, recebi uma senha de prioridade e fui atendida rapidamente. Claro
que gostei de ter esse privilégio, mas fiquei pensando o quanto não me aproprio
desses direitos em situações diversas. Não faço uso da vaga para idoso, filas
preferenciais e outros benefícios.
Será porque não me dei conta que envelheci? Ou percebo a
velhice no outro e não a percebo em mim? Segundo Simone de Beauvoir, velho,
para quase todos, é sempre o outro. É aquela coisa de olharmos para o outro e
comentarmos: como fulano está velho! E o fulano pode estar pensando o mesmo
sobre nós. Bom mesmo é assumirmos nossa velhice, que é um troféu que
conquistamos pelas batalhas vividas e vencidas.
Em verdade, não tenho muita preocupação com o tempo que
passa, ele está cumprindo a função dele. Continuo trabalhando, realizando as
atividades que sempre realizei, com muitos projetos de vida que espero
realizar. E projetos que surgiram já nesta tarde/noite da vida. E foi dentro
dessa proposta de aproveitamento do tempo que me deparei com uma temática que
despertou meu interesse, por perceber o quanto desconhecia acerca dessa fase da
vida, repleta de desafios e oportunidades. Informações que podem nos ajudar a
fazer essa trajetória de forma prazerosa, usufruindo o máximo a condição da
velhice. Daí ter decidido compartilhar essas informações que, com certeza, são
desconhecidas para muitas pessoas.
A vida da pessoa idosa não se restringe apenas a fazer
crochê (no caso das mulheres), fazer palavras cruzadas ou participar de grupos
de pessoas idosas. Nós podemos mais. Podemos pensar nos sonhos que adiamos em
função das obrigações com a família e buscar realiza-los. A velhice nos libera
para a vida, para realizar aquilo que nos faz verdadeiramente feliz.
Nesses novos tempos devemos buscar novos aprendizados,
principalmente em relação a tecnologia que nos permite acessar muitas
informações. É possível fazer cursos à distância, acessar tutoriais que vão
ativar nossa criatividade adormecida e quem sabe, surja daí grandes projetos de
vida.
Jean Paul Sartre, filósofo e escritor francês, escreveu
certa vez: “Não importa o que a vida fez de você. Importa o que você faz com o
que a vida fez de você”.
Que reflexão ele nos trouxe, pois sabemos que para nossa
geração, a vida não foi fácil. Mas foi a nossa geração que ousou provocar
revoluções que transformaram a nossa sociedade. Não fomos uma geração fácil!
Porque entregar os pontos agora?
Já dizia William James – pai da psicologia moderna: “A maior
descoberta da minha geração é que os seres humanos, alterando as suas atitudes
mentais, podem alterar sua própria vida. Da maneira que pensamos, assim
seremos.”
Alteremos nossas atitudes mentais com visões positivas da
idade. Comecemos a desembrulhar os sonhos guardados, porque o corpo vai
envelhecer, isso é fato, mas a mente pode se manter jovem se for bem
alimentada. E está previsto para todos nós, mais e mais anos de vida.
Como diz Jose Saramago em seu poema
“Tenho a idade em que as coisas se olham com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a se acariciar com os
dedos e as ilusões se tornam esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma louca labareda,
ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada.
E outras, é um remanso de paz, como o entardecer na praia.
Quantos anos tenho?
Não preciso de um número marcar, pois meus desejos
alcançados, as lágrimas que pelo caminho derramei ao ver minhas ilusões
quebradas…
Valem muito mais do que isso. O que importa se fizer vinte,
quarenta, ou sessenta! O que importa é a idade que sinto.
Tenho os anos que preciso para viver livre e sem medos.
Para seguir sem temor pelo atalho, pois levo comigo a
experiência adquirida e a força de meus desejos.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa!
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que
quero e sinto.
Dora Rodrigues
22 de março de 2025
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