Velhice sofrida

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim".  Chico Xavier

Começo a reflexão de hoje com essa frase de Chico Xavier, porque quando falamos de velhice, ela nos convida a refletir sobre a velhice de nossos avós, de nossos pais e amigos, que viveram ou vivem uma velhice sofrida, nos fazendo acreditar que faz parte dessa etapa da vida, o adoecimento, a invalidez, abandono e por aí vai. Mas um olhar atento, à essas questões, vai nos mostrar que o passado, que já passou e não podemos mudar, foi desumano demais com nossos ancestrais.

Eu vou me centrar aqui, nas questões que dizem respeito às mulheres. Uma mulher de infância muito sofrida, desassitida de afeto por parte dos pais que, também não receberam afeto de seus pais, para transmitir aos filhos, seguido de um relacionamento abusivo que, muitas vezes, culmina com o abandono do parceiro, sem a mínima condição de seguir adiante, pois nunca trabalhou fora de casa ou teve um salário que assegurasse a família o necessário. Uma mulher que não teve acesso a estudo, assistência médica, exercícios físicos, um lazer, pois que nada disso era ofertado em nossa sociedade, para os de menor poder aquisitivo. Estou falando da história de muitas mulheres que envelheceram dentro dessas condições, culminando com uma velhice onde o adoecimento mental se faz presente e muito sofrimento físico. E o que é pior, sendo desrespeitada, discriminada, desvalorizada, perante uma sociedade que entende que a pessoa idosa já viveu o que tinha que viver e que tem mais é que morrer, pra deixar de dar trabalho.

Mas a história a ser contada hoje é diferente da história que acabamos de contar. E será muito diferente para a geração que segue. Começar agora um novo fim, diz respeito a oportunidade que temos hoje de nos prepararmos para esse envelhecimento a caminho, com os imensos recursos que nos são ofertados. Precisamos desenvolver uma visão positiva da idade, seguir nossos propósitos, buscar nos atualizarmos, porque viveremos mais e que seja da melhor forma possível.

É bem verdade que a coisa não é tão simples assim. Existe uma sociedade com estereótipos acerca da velhice, que foram passados de geração em geração e que cabe a nós os velhos do futuro, quebrar esses estereótipos, a partir de como vamos viver esse momento, que estamos convidados a viver.

Quando estava fazendo estágio no CRAS Piauí, recebi a atribuição de preparar uma dinâmica, para o Grupo Idoso Feliz, que ainda não conhecia. Na minha visão negativa da idade, eram idosos incapacitados. Dessa forma, preparei uma simples dança para o grupo, com a música – Trem Bala e, eles muito solícitos, fizeram a dança conforme foram orientados. Após a dança, teve início a atividade do grupo e foi então que me deparei com idosos, realmente felizes, ao som de uma música super badalada, com ritmo acelerado e todos com uma performance de dar inveja a muitos jovens. Confesso que fiquei envergonhada diante do que apresentei, pois subestimei o potencial do grupo.

Mas eu trouxe aqui alguns dados de uma matéria da revista Super interessante, intitulada – 6 conquistas incríveis feitas por pessoas idosas. Esse material está disponível no : https://super.abril.com.br/coluna/superlistas/6-conquistas-incriveis-feitas-por-pessoas-idosas

Homem de 105 anos batendo o recorde mundial de corrida, fazendo 100 m.

Mulher de 100 anos, nadando 1.500 m.

Homem de 100 anos, batendo o recorde na categoria ciclismo, ao percorrer 100 km.

Mulher de 81 anos, batendo o recorde no Twin Galaxies, a configuração mais difícil do jogo.

Homem de 77 anos, deu a volta ao mundo num veleiro, em 1.080 dias.

Um professor doutor que conquistou o título aos 97 anos.

Um homem de 80 anos conquistou o monte Everest, mais desejado do mundo.

O que essas pessoas tem de especial, para estarem tão bem nessa idade e com esses feitos? Com certeza, uma visão positiva da idade, um estilo de vida que propicie condições de longevidade (financeira: saúde, boa alimentação, lazer...) e social – ambiente propiciador de conquistas. Deixando claro que, não é a velhice que produz o adoecimento físico e mental e sim, as condições vivenciadas em sua trajetória de vida.

Como diz Comfort, “O envelhecimento é um processo intrínseco, inevitável e irreversível, associado à idade, que resulta na perda de vitalidade orgânica e aumento da vulnerabilidade”.

Três Is do Envelhecimento

Intrínseco (faz parte da vida do ser humano); Inevitável (não há como impedir seu avanço) e Irreversível (não há como inverter o processo).

Ao contrário dos nossos pais, estamos chegando à idade considerada como velhice, ainda muito jovens, sem se quer nos darmos conta que já fazemos parte das estatísticas que dizem que o nosso país está envelhecendo.  Somos nós que vamos, por muito tempo ainda, ser a força de trabalho desse país. Portanto, sigamos em frente, aprendendo, ensinando e  compartilhando, porque “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim". 


Dora Rodrigues

8 de março de 2025



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