um olhar sobre a velhice

 

O envelhecimento é um processo intrínseco, inevitável e irreversível, associado à idade, que resulta na perda de vitalidade orgânica e aumento da vulnerabilidade.

Comfort (1964) -  DISCIPLINA - Da perspectiva das perdas ao Envelhecimento Saudável

 

Três Is do Envelhecimento

Intrínseco (faz parte da vida do ser humano)

Inevitável (não há como impedir seu avanço) 

Irreversível (não há como inverter o processo)

No final do ano de 2024, conclui o curso de Serviço Social e, embora tenha dito, para mim mesma e para pessoas em torno: familiares e amigos, que não iria mais fazer nenhum estudo, me matriculei numa pós-graduação sobre envelhecimento humano. O tema chamou a minha atenção, era algo que eu realmente estava buscando. Ao acessar o conteúdo disponível na plataforma, me dei conta do quanto desconhecia sobre essa etapa de vida que acomete a todos nós. E o primeiro questionamento que me ocorreu foi, por que esse material não é ofertado quando se está em condições de mudar o rumo da vida e se preparar melhor para a velhice? Desde que nascemos somos levados a nos preparar para a vida, mas para uma vida de realizações materiais, de vitórias, boas condições financeiras, destaque em áreas diversas, no entanto, a preparação para a finitude, que é realmente a fase que nos aguarda, a não ser que a gente morra jovem, é neglicenciada e, de repente, a velhice surge à nossa frente, como uma imensa placa a nos dizer: início do último percurso. Estudamos tanta coisa sem importância, ao longo da vida, mas somente a partir de um curso específico, é que vamos ter contato com informações, extremamente importantes, para esse momento tão delicado de nossas vidas. E não são todas as pessoas que tem acesso a esse conteúdo, que pode mudar e melhorar as condições do envelhecimento.

Vivemos numa sociedade onde não existe lugar para a velhice, onde a pessoa idosa passa a ser um peso para as famílias, que em sua maioria, não respeitam a pessoa idosa, desconhecendo-lhe o valor e seus direitos e isso é determinante para se temer tanto a velhice.

Assistindo as aulas disponíveis, fui em busca de livros com informações sobre o envelhecimento humano e adquiri alguns. Dentre eles, trouxe para a nossa conversa de hoje, um pouco do prefácio do livro da Dra. Becca Levy, intitulado – A coragem de envelhecer – A ciência de viver mais e melhor. A Dra. Becca Levy, é professora da Universidade de Yale e a maior especialista em todo o mundo em psicologia do envelhecimento.

No prefácio, a Dra. Becca comenta sobre um momento vivenciado no Japão, durante o feriado nacional chamado Keiro no Hi, que se traduz como “respeito ao Dia do Idoso", onde pessoas do país inteiro cruzavam o arquipélago em trens de alta velocidade, barcos e automóveis para visitar os mais velhos. Nesse dia, os restaurantes serviam refeições gratuitas aos idosos; para aqueles com menos mobilidade, estudantes preparavam e entregavam marmitas com sushi fresco e tempura. Mas era evidente que aquela era uma prática diária entre os japoneses. Nesse evento, aconteciam aulas de música, onde pessoas idosas podiam dedilhar uma guitarra elétrica pela primeira vez aos 75 anos. As bancas de jornais estavam repletas de mangás contando histórias de pessoas mais velhas se apaixonando. Os japoneses tratavam a velhice como algo para desfrutar, uma parte de estar vivo, e não como algo a temer ou amargurar. Muito contrário ao que ela via nos EUA, onde a velhice tinha uma imagem cultural diferente. Ela observou que todos os lugares: outdoors com propagandas de tratamentos de pele para “disfarçar a idade”, anúncios de fim de noite de cirurgiões plásticos falando sobre rugas como se fossem generais descrevendo forças inimigas hostis, saudações infantilizadas dirigidas aos idosos em restaurantes e cinemas, programas de Tv, contos de fadas e a internet-, a velhice era tratada como sinônimo de esquecimento, fraqueza e declínio.

Qualquer semelhança é mera coincidência ou estamos assimilando essa cultura?

Diz Dra. Becca - No Japão, ficou claro para mim que a cultura em que vivemos afeta a forma como envelhecemos. Considere a menopausa, por exemplo. A cultura japonesa normalmente não faz muito alarde em torno disso, tratando-a como uma parte natural do envelhecimento que pode levar a uma fase valiosa da vida, ao contrário dos padrões construídos pelos ocidentais, de irritabilidade feminina e obsolescência (que é o processo de redução da utilidade ou valor) sexual que caracterizam a menopausa como uma aflição da meia-idade.

Em nossa cultura, a mulher entrou na menopausa, começou o período de declínio.

A Dra. Becca, observou que, as mulheres japonesas mais velhas têm bem menos tendência de sentir ondas de calor, bem como outros sintomas da menopausa, que mulheres da mesma idade nos EUA e no Canadá. E os homens japoneses mais velhos, que são tratados, culturalmente, “como astros do rock em seu país”, segundo o antropólogo que conduziu esse estudo, apresentaram níveis mais altos de testosterona que seus colegas europeus. Isso sugere que sua libido envelhece de acordo com a maneira como sua cultura percebe e trata o envelhecimento. Comecei a me perguntar quanto a cultura afeta a visão individual a respeito da idade, e a maneira como pensamos nas pessoas mais velhas e no envelhecimento. Fiquei curiosa para saber até que ponto essas concepções individuais, influenciam o processo de envelhecimento. As crenças a respeito da idade poderiam ajudar a explicar por que os japoneses têm a maior expectativa de vida do mundo? Entrei na faculdade para estudar psicologia social, a ciência de como o pensamento, o comportamento e a saúde dos indivíduos são afetados pela sociedade e pelos grupos aos quais pertencem e com que interagem. Queria focar na experiência de pessoas mais velhas, que eram deixadas de fora da maioria dos Estudos de psicologia. O enigma à minha frente era como medir o impacto da cultura sobre a nossa tão bem definida biologia? Depois de realizar vários estudos, descobri que pessoas mais velhas com uma visão mais positiva do envelhecimento tinham melhor desempenho físico e cognitivo (capacidade de adquirir conhecimento e desenvolver emoções) que aquelas com uma visão mais negativa; eram mais propensas a se recuperar de alguma deficiência grave, tinham uma memória melhor, andavam mais rápido e até viviam mais. Também consegui demonstrar que muitos problemas cognitivos e fisiológicos que relacionamos ao envelhecimento, como perda auditiva e doenças cardiovasculares, também são produtos das visões da idade absorvidas do nosso ambiente social. Descobri que essas visões podem até atuar como um amortecedor contra o desenvolvimento da demência em pessoas portadoras do temido gene do Alzheimer. No meu laboratório na Universidade Yale, consegui melhorar o desempenho da memória, da locomoção, do equilíbrio, da velocidade e até da vontade de viver das pessoas ativando estereótipos (padrões) positivos de idade por, em média, dez minutos.

Esses pesquisadores tem uma imensa parcela de responsabilidade no aumento da perspectiva de vida que, no Brasil aumentou de 71,1 anos em 2000 para 76,4 anos em 2023. Neste livro, ela vai mostrar como esse condicionamento, ou a ativação de estereótipos (padrões) de idade inconscientes, funciona, o que isso diz sobre a natureza inconsciente dos nossos estereótipos (padrões que construímos) e como podemos fortalecer nossas ideias sobre o envelhecimento.

Com a atitude mental e as ferramentas certas, podemos mudar nossa visão em relação à idade. Mas, para chegar à origem dessa visão, a cultura etarista (preconceito, intolerância, discriminação contra pessoas com idade avançada), precisa mudar.

Pela primeira vez na história da humanidade, há agora no mundo mais pessoas com mais de 64 anos do que com menos de cinco anos. (menos mortalidade e menos nascimentos – a ONU prevê para 2050, aproximadamente, dois bilhões de pessoas com mais de 60 anos, ultrapassando o número de adolescentes e crianças menores de 14 anos.) Alguns políticos, economistas e jornalistas estão aflitos com o que chamam de “o tsunami de prata”, mas eles estão equivocados. O fato de tantas pessoas viverem a velhice e fazerem isso com mais saúde é uma das maiores conquistas da sociedade. E uma oportunidade extraordinária para repensar o que significa envelhecer. A maneira como se vê a própria idade, ao que parece, pode tirar ou adicionar quase oito anos de vida. Em outras palavras, essas visões não estão apenas na nossa cabeça. Para o bem ou para o mal, essas imagens mentais, produtos das nossas dietas culturais, sejam os programas a que assistimos, as coisas que lemos ou as piadas que nos fazem rir-, tornam-se roteiros que acabamos encenando.

Veja como é sério. As imagens mentais que temos é de uma sociedade onde não existe lugar para a velhice. E acabamos encenando esse roteiro. Podemos mudar para uma sociedade cujas imagens mentais sobre a velhice, seja positiva?

Nossas vidas são produto de muitos fatores diferentes que não podemos controlar: onde e de quem nascemos, o que está nos nossos genes e os acasos que nos acontecem. Meu interesse é identificar os fatores que podemos controlar para melhorar nossa experiência do envelhecimento e nossa saúde. Um desses fatores é a forma como pensamos no envelhecimento e conceituamos o ciclo da vida.

A velhice é uma fase tão importante quanto as da infância, juventude e adulta. A pessoa idosa pode e deve buscar na sociedade, e receber, oportunidades e aprendizado.

Como podemos, como indivíduos e sociedade, mudar nossa forma de pensar sobre nós mesmos e aqueles ao nosso redor à medida que envelhecemos para desfrutar os benefícios dessa mudança?

Nos encontros vindouros, comentaremos um pouco mais sobre as pesquisas realizadas pela Dra. Becca, que muito pode nos ajudar a envelhecer desfrutando os benefícios dessa mudança.

Quero encerrar nossa conversa com o texto de,  Cora Coralina,  poetisa e contista brasileira, falecida aos 96 anos, intitulado - Não tenho medo da velhice.

Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice.

E digo pra você: não pense.

Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo que estou ouvindo pouco.
É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida.

O melhor roteiro é ler e praticar o que lê.

O bom é produzir sempre e não dormir de dia.

Também não diga pra você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais.

Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima.

Eu não digo nunca que estou cansada.

Nada de palavra negativa.
Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.

Você vai se convencendo daquilo e convence os outros.

Então silêncio!

Sei que tenho muitos anos.
Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou?

Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.
O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade.

Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.

Digo o que penso, com esperança.

Penso no que faço com fé.

Faço o que devo fazer, com amor.

Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.


 Dora Rodrigues

1º de fevereiro de 2025




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